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13 de ago de 2015

Sonhos versus Realidade - Capítulo 11.

Quente.

Como assim ele não queria que fosse eu a acompanha-lo no enterro? Eu conhecia Chris, e eu o amava como um verdadeiro tio, e ele me amava como uma sobrinha! Ian sabia disso! E nem é por o acompanhar no enterro, e nem por Ketlyn, é por ele ser covarde, é por ele não ter o mínimo de consideração pelo fato de que eu possa me magoar ou não!
Ele não tem que ter cuidado com meu amor por ele, ele tem que ter cuidado comigo! Mas nem isso... Nem consideração... Nada.
Por mais que Ketlyn seja uma cadela, o que eu deixo claro até mesmo para ela, ela é uma amiga e sempre foi, desde sempre. Ela nunca fez muita coisa para eu me afastar dela, eu só me afastei de Ian. Ela sempre me respeitou e nunca me tratou como Felip tratava Ian, muito pelo contrário! Ela gostava de mim, e eu gostava dela, éramos felizes juntas, e isso bastou e bastava para nos.
Alcancei meu celular e liguei para ela, no quarto toque ela atendeu.
— Hey, Demetria! — ela estava animada, ela arranjou alguém.
— Animada, hãn?! — ri maliciosamente.
— Não comesse, Demetria. Felip está na cidade! 
Sua queda por Felip a fez se quebrar, ele não estava lá para a segurar em seu pulo insano que se chama ''amor''. Ao contrário. Quando eu me quebrei, ele estava lá para mim, declarando amor incondicional e que antes fora escondido.
Eu nunca olhei com outros olhos para Felip. E por mais que ele seja lindo, por mais que eu estivesse acabada, eu não o aceitei; por mais que ele quisesse, eu não o beijei, e por mais que Ketlyn não merecesse, eu a respeitei. Ela nunca foi digna de respeito; quer dizer, suas atitudes eram dignas de uma puta mirim, mas ela não tinha culpa! Ela só queria se divertir e ser feliz! As pessoas nunca a respeitavam, e quando uma pessoa fez isso com ela, ela também foi reciproca.
Éramos quatro.
Ian amava Ketlyn, Ketlyn amava Felip, Felip me amava, eu amava Ian. Éramos um quadrado amoroso, um ciclo vicioso e que foi rompido. Cada um foi para um lado. Estilhaços da Ketlyn me atingiram e agora aqui estamos nos. Primeiro amor ninguém esquece.
— Sério? — agora eu estava duplamente desanimada.
— Sim, sim! — piou. — Ele ligou para mim pedindo seu número. — Oh merda! Esses homens tem o que na cabeça? Eles não têm vergonha na cara? Repentinamente toda aquela animação dela desceu pelo ralo.
— E você deu? — eu rogava para que não! Seu silêncio nervoso me respondeu.
Não.
Ufa!
— O que você fez, então?
— Eu falei que segunda-feira à noite você estaria aqui no bar. — Não mesmo! — Você vem, não vem? — Não!
— Sim. — suspirei. — Por você.
Ela deu um gritinho no fundo, e eu podia ouvir seus saltos batendo no chão em pulinhos afetados. Argh!
— Yeah! Eu te amo, Demi. — beijinhos soltos me surdaram. Eu ri. Como eu podia ser amiga de uma pessoa como essa?
— Eu sei que sim. — gargalhei novamente, e ficamos assim por um tempo, fazendo nossas barrigas doerem de tanto rir.
É, é por isso.
— Eu te devo uma. — lembrou. — Agora tenho que desligar, senão eu vou me atrasar para o trabalho. Vá me visitar no bar quando puder, é fim de semana, Demi! Você merece sair, não espere por Ian.
Olho para o relógio e são seis e meia da noite. Ela entra as sete, e eu sei que ela ainda vai se atrasar.
Não sei se me arrependo de um dia ter contado para ela sobre Ian, ou não. De qualquer jeito, ela ainda pensa que meu primeiro beijo foi com qualquer outro menino.
— Tudo bem, depois me liga para me contar seu plano. — ela riu pela minha evasiva e me soltou um beijo, soltei outro para ela e desligamos.
Eu poderia jurar que esvaziei todo meu pulmão com o suspiro que dei, mas eu não me importei, deitei minha cabeça no travesseiro com um sorriso de orelha a orelha sabendo que eu teria um plano também daqui para lá.
E esse plano não envolveria Realidade.
E muito menos me deixaria com um gosto azedinho com salgado na boca.
Minha mãe entrou no meu quarto e eu estava na cama enquanto mexia no celular.
— O dia já se passou, já é noite e você continua de pijama, Demetria. — eu não sabia bem se ela estava brigando ou não, mas mesmo assim eu decidir rir descarada, sentando-me na cama e deixando o celular de lado. — E continua na cama...
Quando ela chegou no lado da mesma, seu olhar capturou o saco de Realidades que ainda estava em minha cômoda.
— Não me julgue, é final de semana e eu estou em casa, na minha cama e de pijama; eu já deveria estar bêbada à uma hora dessas se eu fosse uma pessoa normal com mais de 20 anos na cara.
— Não exagere. — abanou o ar.
— Não estou. Ketlyn me chamou para ir visita-la no bar, e ambas sabemos que o plano dela não era só uma visita. — minha mãe soltou o ar.
— Você sabe o que eu acho da Ketlyn. — Sim, eu sabia. Mães... Ela enxergam tudo. Só bastou uma olhada para minha mãe saber que Ket era uma má influência.
— E a senhora também sabe que ela é uma das minhas poucas amigas. — a lembrei, ela mexia em meu travesseiro tentando tirar as rugas do mesmo.
Oh!
Ela não estava ali para falar sobre Ketlyn.
— E eu sei que a senhora não está aqui para falar sobre ela.
Seus olhos de jabuticaba olharam para mim, varrendo meu rosto com sua preocupação. Suspirei, passando minha mão por minhas coxas tentando tirar as celulites da mesma enquanto minhas bochechas coraram.
Ian.
— Você gosta dele? — mas ela já sabia da resposta...
— Eu o amo. — e eu também; desde os 12 anos.
 Minutos se passaram e eu finalmente criei coragem e olhei para os olhos da minha mãe, e eu pude ver, por mais que ela gostasse de Ian, por mais que ela tivesse um sorriso mínimo em seus lábios, não era essa a resposta que ela queria ouvir. Talvez um ‘’ eu acho que sim.’’, ou um ‘’ Sim, eu gosto.’’, mas não um ‘’ Eu o amo.’’, e muito menos um ‘’ Eu o amo’’ com a convicção que eu falei. Mas o que eu podia fazer? Essa era a única certeza que eu tinha.
— Mas ele não ama você, não é? — eu voltei meus olhos as minhas coxas, funguei, pigarreei para ver se o nó na minha garganta sumia, então eu a olhei novamente e seus olhos refletiam as lágrimas dos meus.
— Não. — e eu acho que o som não saiu, ficou preso na minha garganta, mas ela soube.
Senti uma gota atravessar minha bochecha e rasgar meu coração, esperei minha mãe a secar, mas ela não secou; esperei minha mãe tirar essa dor de dentro de mim com um abraço, mas ela não tirou; esperei minha mãe preparar água com açúcar para mim, mas ela nem se levantou da cama.
— Eu sinto muito. — pigarreou, e seu olhar não conseguiu sustentar o meu, voltando-se para meu travesseiro.
Funguei e passei meu punho pela minha bochecha, depois pelos meus olhos e ajeitei minha postura, minhas costas estralaram, pigarreei novamente, tragando o nó que tinha na minha garganta.
— Eu também. — seus olhos voltaram para mim, um sorriso de lado atravessou seu rosto e ela sorriu orgulhosa.
Eu sempre fui um soldado para ela.
Nunca me ninaram para eu dormir.
Nunca me acariciavam quando eu acertava.
Sempre quando eu estava com minha mãe, ela era como um sargento e eu o seu soldado.
Eu via desse jeito.
Quando eu caia, eu não tinha uma mão para me ajudar a levantar; mas ela sempre estava lá, com a postura ereta, as mãos cruzadas atrás do corpo me olhando de cima enquanto eu estava suja de lama e machucada no chão, meu rosto traçado em lágrimas de sangue, pedindo seu perdão sem mesmo eu ter errado. Mas ela sempre estava lá, me olhando enquanto eu gritava de dor, com algum osso fora do lugar ou até mesmo meu coração, me olhando ganir enquanto eu o trazia de novo para o lugar como um cão com a pata quebrada.
Sim!
Quando eu conseguia me levantar, ajeitar a postura, minhas mão para trás do meu corpo, e mesmo com o rosto ainda traçado de sangue eu batia continência, e ela sorria orgulhosa.
E mesmo que essa não fosse uma recompensa ou um consolo, eu não podia viver sem o seu sorriso orgulhoso pela minha dor. Por que esse seu sorriso não é por minha dor ter passado, e sim por eu conseguir me erguer mesmo com ela me pesando e me matando a cada passo, a cada sorriso.
— Aquilo... — minha mãe começou, ela estava querendo ser sutil. — Era ciúmes?
Oh não. Aquilo era tudo, menos ciúmes.
— Bem que eu queria! — minha voz se ergueu em exasperação. — Por mais que eu saiba que Ian sempre amou Ketlyn, eu não consigo ter ciúmes dele ou inveja dela por ele querer ela e não eu. — e agora ela estava sorrindo para minha repentina irritação. Ela queria que eu sentisse raiva. Que eu reagisse! Eu não daria isso a ela. Suspirei, e como se tivessem furado meu pinel, toda minha raiva e indignação foi saindo por ali. — Eu o amo, mas eu não o quero para mim. — engatei a primeira marcha, abrindo um sorriso. — Eu sou burra o suficiente para saber que por ama-lo eu deveria querer ele para mim, mas também sou esperta o suficiente para não o querer mais depois dele já ter me decepcionado.
Me estiquei na cama e consegui alcançar o saco de Realidades, puxei um bolinho de dentro dele, enfiando um na minha boca e não me importando se era muito grande para a mesma; minha mãe enfiou uma mão no saco e pegou um, mordendo; tentei mastigar mais uma vez e aquilo realmente não iria dar certo. Salivei, e logo em seguida me engasguei, derrubando o saco na cama eu corri até o banheiro e derramei tudo que estava na minha boca dentro da privada, junto com o que também estava dentro de mim. As palmas das minhas mãos foram para as laterais do vaso sanitário, minha garganta ardendo e meu rosto em chamas enquanto minhas costas arqueavam, tudo voltando pela minha boca sem ser pronunciado nenhuma palavra.
O beijo.
Ketlyn.
O convite.
Minhas pálpebras se apertaram e eu senti meu cabelo ser suspenso, minha mãe esfregando minhas costas.
Oh!
Minhas lágrimas também foram parar dentro da privada, e ali de repente era o lugar certo de tudo aquilo.
O gosto azedinho e salgado na minha boca? Agora não passava de um gosto ruim na mesma, amargo e enferrujado, vômito.
Meus pulmões se forçaram entre si em busca de ar, mas eu não conseguia respirar enquanto vomitava. Forcei minha garganta atrás de mais para derramar, me esvaziar; pensei em enfiar meu dedo na garganta, mas eu também era esperta o suficiente para saber que isso seria burrice.
Nada além do que um liquido amarelado e escasso saiu pela minha garganta, e agora eu estava vazia; realmente vazia. Continuei pendendo em cima da privada por meus braços, eu chorava copiosamente, minhas costas se convulsionando sob meu corpo em pequenos espasmos agora não por causa do vômito, e sim por causa do choro.
O choro é vomito dos olhos, colocando tudo para fora que a boca não colocou.
Com um braço me enlaçando, minha mãe me puxou para si, me guiando até a cama e se deitando na mesma comigo, deixando minhas costas inquietas baterem em seu peito enquanto sua mão esfregava o meu, me lembrando de quando ela fazia isso comigo quando eu era mais nova. Não precisei me virar para saber que em seus olhos haviam lágrimas, e isso me fez chorar mais.
Depois de longos minutos, limpei minha boca suja com o lençol, deixei minha mão lá; eles estavam quentes.
— Você quer agua com açúcar? — minha mãe perguntou, ainda me abraçando, suas mãos em minha barriga.
Sorri, descendo minhas mãos para as suas em meu corpo, deixando lá.
— Eu deveria querer. — comecei, e com seus lábios pressionados em minha nuca eu pude saber que ela estava sorrindo. Sorrindo orgulhosa de mim. — Mas eu não quero.
Levei suas mãos para meus lábios e as beijei, deixando-a sentir meus lábios quentes, logo depois voltando-as para minha barriga também quente.
Continua...
                                                       
 Maybe I come back to myself.
Talvez eu volte para mim mesma.
I don't know, I... I... I lose myself! (...) Crazy?
Eu não sei, eu... Eu... Eu perdi a mim mesma! (...) Louco?
In collapse.
Em colapso.
~Possível short. 
Ou eu deveria dizer... Shot (Tiro)?

3 de mai de 2015

Two Pieces (Dois pedaços). New Short Original - Finalizada.

Para começo de conversa! Faz tempo, não faz? Faz. Essa nova história curta já está finalizada, por isso eu estou aqui, por isso eu dei as caras. Não quero vir pela metade, e é justamente isso, ''metade'', que tudo se trata. 
Para quem não sabe, minha melhor amiga, Caroline, eu conheci por aqui. Ela era/é minha leitora, mora no Rio de Janeiro, e se tornou uma parte de mim. Por isso o título dessa short. Duas partes. É algo totalmente novo! É original. E é sobre minha amizade com ela, nosso encontro, nossas brigas, sobre a gente! Sobre amizade a distância. Mas traz esperança. O aniversário dela foi dia 21(25 u.u) de abril, e eu queria fazer algo para ela. Eu poderia fazer um texto fofo no Facebook, eu fiz. Poderia postar fotos, eu fiz. Poderia fazer declarações, eu fiz. Mas eu queria fazer algo nosso, para ela, algo meu. Então o que melhor do que fazer uma história totalmente dedicada a ela? Foi por isso que a gente se conheceu, né?! Eu escrevo, ela lê. Então estou postando aqui, por que foi aqui onde a gente se conheceu. 
Enfim! Mais esclarecimentos, no final ;) 

    [Aviso para a Carol antes de ler: Leia com calma, se lembre de todas as nossas conversas, desabafos, brigas, tudo! Vai ter muitas coisas fragmentadas e cada uma tem seu significado; as partes estão espalhadas por toda a história, sério, para um melhor aproveitamento, leia tudo com muuuuuita calma e lembre, relembre, por que se você achou algo, não, eu não escrevi isso por acaso, foi tudo muito pensado e eu mesma fiquei embasbacada quando eu li, reli, li de novo e assim vai. Ah! Te amo, espero que você goste ;)]

    Sinopse:
    O sonho de Daphne, uma garota carioca de 15 anos, é ser uma fotógrafa e morar em Londres; ao menos um de seus sonhos. O sonho de Beatrice, cearense, que tem 16 anos, é ser uma escritora reconhecida, e morar em NY! O que essas garotas opostas tem em comum, sendo que nem da mesma cidade são? O sonho de sair de seu país de origem e se mandar para o exterior, explorar o mundo! De morarem em Londres juntas. Um sonho sonho em comum. Elas são pedaços diferentes do mesmo coração partido.

                                           ~~ \\ ~~

           Daphne/

O ar frio me embala como um cobertor, eu me sinto fria realmente, e por mais que as pessoas digam que isso é ruim tanto em estado físico como psicológico eu não me importo, não mais; eu apenas aprecio o frio que me faz companhia sentada no banco de madeira ao meu lado, enquanto observamos a gigante roda a nossa frente, ou roda gigante, tanto faz! Mas eu prefiro chamar de realização de um sonho, ou de Beatrice, mas eu prefiro chamar de "".
London Eye! O olho de Londres! E por longos anos, esse lugar era refletido a todo o momento pelos meus olhos como um sonho, uma meta, quase como uma futura conquista ou um futuro-futuro para quem conseguia enxergar através da nevoa de medo que cobria meus olhos, quase como uma segunda pele, quase me cegando. Bem, poucas pessoas conseguiam enxergar através dela, poucas pessoas conseguiam me enxergar por detrás dela ou por sobre ela, e as que conseguiram, não ficaram, se assustaram; mas a única que conseguiu e ficou, já se foi, eu a afastei de mim, ou melhor, eu que me afastei das pessoas! Eu queria aceitação, e como eu não tive, eu me afastei e busquei minha auto-aceitação. Bem, até hoje eu não consegui; agora, sentada em um banco em Londres observando London Eye, com 27 anos, com minha profissão de fotógrafa profissional estabilizada e completamente livre, eu não me sinto presa nem por um misero segundo! Mas eu não me sinto como da primeira vez.
Beatrice está morta.
Eu recebi a notícia há semanas em suas redes sociais, e a filha da mãe ainda nem tinha publicado o outro livro de sua saga! Em meu celular eu rolo sobre as nossas mensagens mandadas há anos, e o apelido mutuo de "" se sobressaia em todos. Eu era sua garota, e quando ela se foi, eu só queria que a merda toda fosse enterrada junto com ela! Eu era livre! E agora eu entendia que ela  só queria me prender em algo, ao menos em algo...
"Para sempre quando você se perder em seu grande pequeno mundo, você ter algo a quem voltar".
Uma citação discreta em um de seus livros. Merda! Ela morreu de desgosto de mim, assim que percebeu que eu tinha mordido a corda! Céus, sua vida era um pesadelo de um sonho! Ela não tinha a quem correr, mas sempre tinha alguém lá para lhe puxar para um abraço. Ela era famosa! Quem não queria um abraço dela? Eu queria! Mas quando ela abriu os braços, eu fugi, por que ela os fecharia mesmo que em um abraço.
Levantei meus olhos do meu celular e suspirei.
Semanas.
Meses.
E eu ainda não achei minha aceitação, e agora eu sei que ela está enterrada num tumulo.
Ou na minha frente.
’ roda refletindo a noite, a paisagem está maravilhosa! Alcanço minha máquina fotográfica na minha bolsa e saco ela para tirar uma foto. Estanco, abro a boca descrente, meus olhos se arregalam e eu posso ouvir uma gargalhada carregada de sotaque rindo de mim.
Minha câmera velha.
Podre.
E em um click eu acordo.
Sinto o suor na ponta do meu dedo que está pronto para apertar o botão da minha câmera como um gatilho para matar um homem, mais precisamente, todo mundo; eu queria macerar todos e os verem babar pelas minhas fotografias, só para depois eu fechar sua boca e dizer que sua presença insignificante poderia acabar com a foto. Mas a insignificante ali era eu. Era eu que me sentia insignificante e humilhada. Canalhas ostentadores! A quem eu queria enganar? Minha câmera era podre! Enquanto a deles era... Ótima! Minhas fotos seriam excluídas por mim mesma pela qualidade tosca em comparação à deles. Tirar fotos ótimas requer câmera ótima! É assim que o mundo caminha, e enquanto eu sonho com uma nova, os velhos ostentadores levam os créditos.
Engulo o choro e a mágoa como sempre, e converso com a Bê e desabafo, como sempre.
 Pare de ser idiota! Você é ótima, e não precisa ter uma câmera ótima para provar isso. Tá, ser humilhada é um saco, essa situação é difícil, mas você não é a única; já tentaram me humilhar na escrita, mas eu não precisei provar nada para eles para provar algo. Se Deus quiser eu vou crescer nisso e eles vão ver por si só. Eu tenho que provar algo é para mim mesma! Vou crescer nisso e ir para fora do Brasil, e que as pessoas que tentaram me humilhar se ferrem!
E como sempre, ela acalmou meu coração. Ela faz isso comigo, e acredito que com todas as pessoas. Ela mexe com nosso coração, segura ele na mão e o acaricia, aperta até nos fazer chorar ou explodir, ou tudo ao mesmo tempo. Ela tinha que conseguir o que queria, por que se ela não conseguisse, seria porque ela não queria, mas era impossível, ela amava isso, era sua vida.
 Mas Bê, dói...
Fui sincera, e falando assim, parecia que nem estava doendo, que eu era uma fraca. Eu também estava com raiva, mas esse sentimento se voltou contra mim por ter falado isso para Beatrice; mas não tinha como não falar, ela parecia tão... Tão... Tão confiável, uma pessoa de outro mundo, quase como um reflexo da minha alma, ali, em carne e osso. Palavras certas na hora certa. Um efeito.
 E nunca vai parar de doer, essa dor só vai aumentar se você não souber como lidar com ela. Não é privando a dor de entrar que você vai parar de sofrer. Não é fugindo da guerra que você vai vencer ela.
Às vezes ela falava tão exageradamente! Mas ela era dramática e dramaturga, ela tinha que ser assim. Mas ela ainda assim estava certa, ela quase sempre está, e quando é provada do contrario, ela continua certa, certa para ela mesma. E é isso que importa, certo? Egocentrismo? Talvez. Mas então amor próprio é egoísmo. Mas eu acho que me incomoda o fato de que ela pode me conhecer verdadeiramente, ou ao menos saber de uma parte de mim que ninguém deveria saber, nem eu mesma. Eu quero ter algo a esconder dela, já que ela me esconde tanto, não quero parecer indefesa, mas é como remar contra a maré. Eu posso já ter a machucado alguma vez, ela gosta de ter um pouco de controle, a vida dela já é uma loucura sem controle! Mas... Beatrice é uma incógnita, ela está fora de alcance e isso a protege, isso me protege, se eu pudesse tocar nela ela explodiria em minhas mãos.
Enquanto balanço uma caneta entre meus dedos, uma folha rascunhada está a minha frente. Não é inveja, não pense isso, eu só estou querendo espairecer. Por que eu tenho tanto medo de me arriscar? Céus, isso não deveria ser tão difícil. Minha irmã está rindo em um lado, e é só isso que eu consigo entender que está acontecendo ao meu redor. E o sonho de hoje mais cedo? Aquilo foi louco! Por um lado eu queria acreditar que tudo aquilo fosse verdade, mas por outro... morta? Eu em Londres! Esqueci da outra parte e me foquei em Londres. Eu estaria fora do Brasil, longe de tudo e de todos; eu queria isso, a própria Beatrice sabia disso! E por um momento eu não me culpei por querer que aquilo tudo fosse verdade, mesmo que Beatrice... Eu poderia conviver com isso. E não era só, porque, principalmente agora, eu estava querendo sumir.
Problemas familiares sempre puxam lágrimas, e o lado mais fraco da corda sempre arrebenta. Odeio me verem ou saberem que eu chorei, é uma merda! Eu não sou fraca, e para variar eu sou culpada por mais uma coisa: minhas próprias lágrimas. Disso eu me culpo: me importar muito. Posso não está falando nada com nada, mas é assim que está minha vida. Para uma adolescente de 15 anos normal isso é o fim do mundo, mas para mim, é só o começo. Guardo a folha que eu estava escrevendo como se eu estivesse guardando minhas mágoas e meu passado podre, minha realidade alternativa ridícula e meu mundo humilhante, porque na verdade, eu estava guardando tudo isso. Eu tinha medo demais de me descobrirem, como se uma autora estivesse jurando quem realmente foi seu primeiro amor em uma historia porque tem medo de falar isso em alto e bom som; e não é como se eu estivesse falando mal de uma amiga, mas também sabe que eu tenho medo, e que ela também tem.  Eu estou mudando, ela sabe que sim, até os que não me conhecem a fundo sabem disso, principalmente esses; eu estou assim... Aprendi com as pancadas, fiquei caliçada, estou menos otária e menos ingênua; agora eu sei manipular, e aprendi a fingir ser manipulada. Beatrice já falou isso para mim, e por incrível que pareça ela está mais afetiva; não sei como ela se sentiu por revelar isso. Ela estava me perdendo? Eu acho que sou eu, eu mesma estou me perdendo; ou eu nunca me tive.
Me pergunto quem sou eu, mas minha linha de pensamento é interrompida por mim mesma.
Por mim em Londres.
"Não poderia fazer sentido. Não poderia!  Eu não sinto mais minhas pernas, meu coração acelera e eu quase posso ver meu peito correndo sobre meu próprio corpo, meu sangue ficando preto de imundice como meu passado e meu futuro. Eu não devo querer morrer sozinho, reflito, mas eu sei que devo, eu sei que mesmo que eu queira alguém conhecido para chorar sobre meu corpo nojento e lavar o mesmo com suas lágrimas, eu não teria. Não foi as pessoas que se afastaram de mim, fui eu! Fui eu que me afastei delas! E agora eu mereço morrer só, eu deveria querer isso por um dia ter fugido para longe de todos e ostentar meu status. Mas agora eu só tenho isso... Eu não tenho nada, só o orgulho que me mata aos poucos como napalm em minhas veias. Eu não estava morrendo, eu estava vivendo. Eu já estava morta. Todos já estavam mortos. A vida é isso: uma maldita piada morta, que morre na boca, morre no riso, morre no chão se debatendo enquanto gargalha."
Beatrice é uma filha da mãe! Quando acordo essa mensagem está no meu celular junto com "Está bom? Acho que estou perdendo o jeito!". Realmente, em sua nova rotina em escola integral estava tudo mais difícil e escasso seu espaço de tempo vago, mas estava bom, não estava? Mas... Se era isso que ela queria para a vida dela, porque ela não investe nisso? Talvez eu esteja querendo que ela faça uma escolha de sua própria vida. Talvez ela não queira só ganhar dinheiro e se mandar para o exterior. Talvez ela só não queira fazer uma escolha. Talvez ela queira mais da vida, mais dela. Talvez seja tudo junto! Mas mesmo assim eu perguntava, porque já cansei de elogiar seus textos. Ela era insegura ou o que? E então a gente brigava, e eu sabia que ela se magoou porque a vida é dela e eu mesma não gosto nem que minha mãe se meta nas minhas decisões! E isso tudo era um saco, eu não era obrigada. A aturava, por vezes a ignorava, em outras a magoava, mas Beatrice consegue ser vingativa, ou não, porque eu sabia que ela seguiria sem mim se eu escolhesse seguir sem ela. E merda! Quem não iria querer ser amiga, ter a mesma intimidade que eu tenho com ela? Ela era... Diferente. Alegre e melancólica, ela ri e chora melancolia; mas eu perderia ela, eu já estou perdendo. Quando ela cria vergonha na cara, não sossega até que a situação esteja resolvida, ou finalizada. Sua decisão é forte e persuasiva. Perigo. Perigo. Perigo. Era isso que estava escrito em seu coração; e no meu também. O fim estava perto, eu podia sentir o ar rarefeito e meu coração tampando meu ouvido com seus batimentos cardíacos. O lençol estava me cobrindo completamente, e quando o ar faltou eu tive medo, voltei para aquela garotinha ingênua e sabia que algo estava faltando em mim.
                 Ar.
             Beatrice.
          Tirei rapidamente o lençol de cima de mim buscando ar, como meu primeiro sopro de vida. O ar voltou para mim.
             Beatrice também.
   Oh meu Deus...!
   Bê!

Beatrice/

Pensei em escrever para ela, ou sobre ela.
Pensei em voar para sua cidade e chacoalha-la pelos ombros para ver se ela reage.
Pensei em machuca-la para ver se ela grita.
Pensei em chorar para ver se ela chora também, para a ver limpar minhas lágrimas enquanto eu limpo as dela.
Pensei pela milésima vez em voar para sua cidade e abraça-la novamente, por que eu nunca pensei que aquela seria a única e última vez.

Nunca escrevo em papel, não me olhe estranho, prefiro mil vezes digitar, é como se assim meus dedos conseguissem acompanhar meus pensamentos, mas hoje, especificamente agora, eu me lembrei dela, do que aconteceu e do que eu nunca terminei. Peguei uma caneta e olhei o papel branco na minha frente. Pensei em ir trocar a caneta, pensei na cor do papel, pensei no que eu ia escrever, tentei pensar em tudo! Mas nada vinha, só aquele incomodo de que algo estava faltando, de que eu estava perdendo algo. E era disso que eu precisava. Encostei a caneta no papel e um vento forte me bateu, eu estava com frio! Levantei a cabeça do papel e olhei ao redor. Merda! Onde eu estava? Um casaco abraçava minha pele e eu estava incrivelmente linda, quer dizer, eu me sentia linda! Saquei meu celular que eu senti no bolso de trás e olhei na câmera frontal. Aquela era eu? Bem, Bê sempre citou ‘’ Se o espelho da sua casa mostrasse sua alma, você se reconheceria?’’, ignorando que eu estou olhando no meu celular, a resposta é sim, agora, eu me reconheceria. É assim que eu me imaginei, é assim que eu sonhei, e não tem nada que eu reconheça mais que meu próprio sonho. Eu que o sonhei! Eu que o escrevi em letras transparentes para ninguém ver, ninguém ler, ninguém roubar minha futura felicidade como sempre faziam com minhas velhas. Olhei a data no celular e merda, anos se passaram! Eu tenho realmente 28 anos? Eu perdi tanta coisa! Ou nunca tive muito a se perder. Pelo meu próprio celular, bolsa, roupa, onde eu estava! Eu sabia. Tinha se realizado. Dei uma rápida checada no meu e-mail e eu apenas ri; inacreditável! London Eye está na minha frente e eu não ligo para mais nada, tudo aconteceu. Mas... Se isso tudo é um sonho, por que eu estou em Londres e não em NY? Meus sonhos mudaram, ou eu só estou em um deles? Por que não se engane, eu escrevo a tempo demais para não conseguir manipular meus sonhos; quer dizer, um deles era justamente eu brincando de o manipular!
‘’Sonhos versus Realidade, best-seller.’’ 
Não, não, não, não era essa minha prioridade, mas meus sonhos estão se escrevendo sozinhos, e dessa vez eu não me importo, só me deixo levar. Visualizo um banco de madeira com uma visão privilegiada para a roda gigante iluminando a noite e eu não ligo que tem alguém sentado no canto do mesmo, minha vergonha nesse momento simplesmente desapareceu, ou se escondeu de medo. Sento no banco e me lembro que ainda estou com uma folha em minhas mãos, a mesma que me ‘’ teletransportou’’ para cá, mas ela está amassada, como se eu tivesse a resgatado como uma bola de papel e a desamassado, deixando-a plana novamente, mas com inúmeros riscos a marcando-a. Oh! A folha está em branco, mas mesmo assim ela foi amassada. Tento desesperadamente enxergar algo, forço meus olhos, viro a folha e olho no seu verso se tem algo. Tem que ter! Meu Deus, por que a mesma sensação que me trouxe aqui está vindo de novo? Já passou, não passou? Sim, e é exatamente isso. A caneta em minha mão está quebrada, mas mesmo assim eu a encosto no papel e começo a rabiscar, é isso, eu preciso escrever, em uma respiração forte e forçada do ar frio de Londres, com o rosto iluminado pelas luzes de London Eye, em mais um vento forte, eu me vejo em um soluço rouco, meu rosto iluminado de lágrimas e o suor em minhas mãos não me deixando escrever.
Eu voltei.
A folha ainda está na minha frente, lisa.
A caneta ainda está em minha mão, nova.

‘’ Tento escrever um uma folha que antes estava em forma de bola; desamasso-a e tento a deixar plana, mas ela ainda está com inúmeros riscos brancos, ranhuras por ela ter sido amassada.
- Estou tentando escrever em mim.’’

Daphne/

Bê!
Era ela que sentou nesse banco! Céus, mas ela está morta! Quando eu vi alguém vindo em direção ao banco minha timidez simplesmente me retraiu e me abraçou, me enclausurando em mim mesma, impedindo-me de olhar para o lado e ver quem é, se agarrando em minha língua e a pesando, não me deixando falar, não me deixando a reconhecer! Mas ela estava tão mudada... Mas bastaria eu olhar para o colar que ela ostenta em seu pescoço e eu saberia... Eu odeio dourado, e ela também, mas ela ainda usa... Só. Por causa. De mim.
Levo timidamente as pontas dos meus dedos para meu pescoço enquanto meus olhos são carregados para London Eye, quando eu toco a prata fria retraiu meus dedos automaticamente, achando ter tocado meu coração. Essa época do ano é bastante fria em Londres, falo como justificativa para mim mesma, mas não é por causa dessa época que a prata ficou muito fria... Beatrice morta, meu aniversário está perto e não é como se eu fizesse 15 anos para ser uma data tão importante, mas eu estou em Londres! Sozinha. Aperto a prata fria em minha mão e meus dedos delineiam o ‘’B’’ em seu pingente. Pequeno, discreto, adjetivos que Beatrice usou para descrever o colar como justificativa para me dar, ela, me dando para mim mesma... Meus olhos delineiam ‘’’’, mas invés do redondo, meus olhos fazem curvas. Imagino seu corpo médio e moreno, seus cabelos lisos me enlaçando, seu corpo me dando voltas e sua voz me fazendo rir. Um casal de amigas passam rindo em minha frente e desfazem a lembrança de Beatrice como uma nuvem de fumaça, e momentaneamente eu lembro de ‘’Frankie’’, um personagem de uma de suas histórias.
Em um soluço choroso afundo minha cabeça em minhas mãos, e em outro soluço eu apoio as mesmas no banco de madeira, tentando a segurar, tentando me segurar no que quer que fosse, assim como Beatrice queria... Mas já é tarde, não era? Mas uma de minhas mãos deslizam, e eu vejo que é por que tem uma folha de papel ofício ficando entre minha mão e a madeira.
Meu cenho se fecha, minha mão se fecha e eu seguro a folha em minhas mãos.
Minhas pupilas se focam e meus olhos oscilam.
Oh!

‘’Eu morri.
Morri para minha família.
Morri para meus amigos.
Morri para o porteiro do meu prédio.
Morri para a faxineira do meu apartamento.
Morri para mim.
Morri para ela.
E eu não achava que seria assim. Quer dizer, eu não achava que terminaria assim. Achava que seria eu a causadora de tudo entre a gente; isso é muita prepotência? Achava que seria eu a dar a cartada final da nossa amizade; isso é muito orgulho? Achava que a morte seria apenas um fim, uma linha tênue de sono profundo. Sem pesadelos. Sem realidade. Mas é muito pior... Sem sonhos. Sem fantasia ou ficção.
Apenas. A porra. De uma. Realidade. Crua. E descartável!
Devo repetir? Sem sonhos.
Sem aquilo que você achava que ia conseguir, sem aquele passatempo doloroso mas indolor de simplesmente inventar o que ia fazer, ou até comer.
É como costurar a própria pele.
Sem dor.
Sem aquela sensação de que pode ou vai perder algo. Alias, sem qualquer sensação!
Apenas uma realidade sem a parte realidade, entende?
Uma coisa monótona.
Como dormir sem sono. Deitar sem ir dormir. Dormir sem sonhar.
Nessas horas você sente falta até dos pesadelos!
Quer dizer, eu queria morrer e morri. Não tem mais dor. Não tem mais nada! Só descanso! E era isso que eu queria, não? Sim. Mas eu queria ser lembrada! Eu queria me lembrar. Eu queria sorrir por morrer! Chorar por ter vivido! Me arranhar por ter morrido pra ela.
E assim eu faço;
Me abraçando.
‘’Eu não desistirei de você.’’
Cravando minhas unhas em minhas costelas.
“Eu não sou como as outras pessoas, eu não vou te abandonar.’’
Sentindo meu próprio sangue quente escorrer por meus dedos.
‘’Eu te amo.’’
Deslizando minhas unhas até minha barriga.
‘’Não existe Caroline sem Beatrice.’’
Sentindo o ardor, sentindo algo arder junto com meu coração, me deixando ignora-lo.
‘’Você é a melhor parte de mim.’’
Eu sou doentia, mas não pense que eu me machuquei por qualquer pessoa. Olho para minha barriga e ela está intacta, nada aconteceu realmente.
Mas eu me machuquei, de qualquer jeito.
Eu me machuquei por mim mesma.
Eu me matei.
Mas não pense que foi por que eu perdi Caroline.
Mas sim por que eu perdi a mim mesma.’’

Eu estava embasbacada!
Olhei ao redor com meus olhos vidrados, certificando-me que eu ainda estava em Londres. Que eu ainda estava sonhando. Que eu ainda estou no sonho de Beatrice.
Está tudo escrito!
Meu Deus, ela não pode morrer.



‘’Sei que essas serão minhas últimas palavras, minha última história, meu último sonho. Então eu quero que seja algo significativo. Algo que eu realmente sonhei sem ter medo de colocar nomes reais, jurar quem foi meu primeiro amor, gritar meus medos, enfrentar minhas alucinações, beijar meu sonho e parar de escrever, mas agora dizer. Gritar!

Meu real nome é Rebecca Gomes, tenho 28 anos, estou em frente a London Eye, acabei de voltar de Nova Iorque de uma reunião dos últimos acertos para o lançamento do meu próximo livro para encontrar minha melhor amiga, Caroline Santos. Temos uma casa de temporada aqui, e eu escolhi aqui, exatamente aqui para me encontrar com ela. Eu preciso entrega-la umas folhas, e ela precisa me mostrar sua nova aquisição, vulgo câmera fotográfica. Carol é uma fotógrafa. Famosa? Piada perguntar. Seu sonho? Um deles, ela tem tantos! Preciso me organizar com ela, e ela comigo. E eu digo ‘’organizar’’, e não ‘’acertar’’, por que bem, se eu usasse essa palavra ela não viria. Se tem uma coisa que ela não é obrigada, é aturar problemas. Mas a mim ela precisa aturar, ao menos essa última vez.
 Hey!
Nós não nos abraçamos.
Saquei as folhas da minha bolsa e a entreguei.
— O que é isso?  ela perguntou, sua voz ainda era doce assim como seu cheiro, e era apenas quando se tratava dela que eu conseguia gostar de cheiro doce. Por que para mim, não se tratava de um cheiro doce, se tratava de ser o cheiro dela.
Sua curiosidade não me deixou responder, e ela já estava lendo as folhas de papel. Eu pude ver seu maxilar delineado travar, sua boca pequena se retrair e seus lábios desenhados cobertos por um batom vermelho parar.
 Não pode ser...
 É o que você escrevia; quer dizer, ao menos as que eu pude achar. Você fez um bom trabalho escondendo tudo aquilo.  eu já pendia sobre meus calcanhares, desconcertada. Seu olhar é leitor, e eu sou uma autora, ela podia facilmente me ler, ela sabia que ela podia.
— Como você achou?  sua boca não fechava para falar, e suas mãos não soltavam as folhas, seus dedos estavam abraçando as mesmas em saudade, como um abraço de duas grades amigas que só se conheciam virtualmente, e finalmente estavam se encontrando – Quer dizer, você mora em Nova Iorque, e isso aqui..
 Estava no Brasil, eu sei.  a interrompi, rolando os olhos e os calcanhares, minhas mãos nos bolos da minha calça para não estar nela, eu queria a abraçar. Minhas costas olhando para ela, ao invés dos meus olhos. – Eu fui para o Brasil esses dias, dai...
 Pera, você voltou para o Brasil?  Parecia que eu estava traindo-a.  Por que? Como assim?
Respirei fundo, e finalmente virei-me ainda com os olhos no chão, mas seus olhos me levantaram para si.
 Eu vou voltar para o Brasil, Caroline.  como ela não falou nada, continuei.  Eu só queria me despedir, então trouxe isso para você, ou melhor, te devolver.  silêncio  Talvez assim você consiga se lembrar um pouco dos velhos tempos.
 Eu não acredito...  seus dedos falharam, e eu segurei sua mão junto com os papeis e apertei para a sustentar. — Rebecca, porque você vai voltar? Você queria distância! Queria estar longe! Por que vai voltar?
 Por que eu me sinto sozinha, Carol.  como se eu estivesse a deixando...  Eu não quero voltar para lá, eu quero voltar para as pessoas que eu deixei lá.
 Mas e eu? Eu estou aqui.
 Não, você não está. Você está aqui para se desprender, e não é algo com você, é algo comigo. Não se faça de vítima, Caroline, mas você não gosta que ninguém te prenda, e você só está de saco cheio de mim.  respirei fundo, a largando e ajeitando minha bolsa em meu ombro.  Olha, eu só vim me despedir, ok?  eu queria tanto lhe dizer a verdade...
 Não. Eu sei que não é só por isso.  Merda!  Você não veio só para se despedir, se não teria me abraçado. Aliás, você teria me abraçado de qualquer maneira! Não teria voado para o Brasil para trazer esses malditos papéis, e muito menos estaria tão nervosa, pulando nos próprios calcanhares.  eu estava mordendo o lábio, de costas para ela para impedi-la de continuar. A maldita me leu! Sua mão pequena segurou firme meu braço e me virou, ela estava com raiva. – Você quer que eu sinta falta.
Afirmando. Ela era tão calma e meiga, que quando ficava com raiva era assustador, eu choraria só com a possibilidade dela chorar.
 Merda, Rebecca! Você quer que eu sinta sua maldita falta!  agora ela que estava girando descrente, abanando os papeis.
 Por favor, Carol.
— Então tá!  foi ai que ela parou, apontando os papeis para mim.  Vá. Mas quando você for, não volte. Não faça merda de texto, nem mande indiretas para mim, nem escreva nem nada; se você for, não volte.
Ela sabia que eu iria, sabia. Ela sabia que eu gostava de algo de efeito, mas isso foi cruel. Eu iria, ela sabia, e dessa vez eu não iria mais voltar.
— Eu não volto.  e eu não voltaria.
Dei dois passou para frente e fechei meus braços ao seu redor, batendo meu peito no dela, meu soluço batendo no dela, suas mãos em minha cintura, indecisa entre minha omoplata ou minha cintura; ela ficou entre as duas. Os papeis que antes ela segurava? Nos rodeavam. Minhas mãos? Uma a apertava contra mim, outra apertava seus cabelos, os deixando se enrolar em meus dedos e me dizer que ela é real, que ela estava realmente ali. Ela exalava um cheiro doce, e o meu era amadeirado, seus cabelos eram grandes, os meus nem tanto, ela era suave e eu tinha vontade de choramingar.
 Eu te amo.  soprei em seu ouvido.
 Eu também te amo.  mas eu não fiquei lá para senti-la soprando, nem para vê-la recolhendo os papeis.
Eu já tinha ido embora, e dessa vez, eu não ia voltar.
Concorda? Com corda. E suicidou-se, partindo seu coração em duas partes.
Como dois pedaços de um coração partido...”

Esse era seu sonho?! Era assim que iria terminar?
Não!  gritei.
 Tá louca, garota? Cruz credo!  minha irmã gritou comigo, e eu estava pingando em suor.  Curvei-me rodeando minha própria cintura com os meus braços imaginando os dela, minha mãe apareceu no quarto.
 Está passando mal, Carol?
 Cólica, mãe.  Sim.
E então tudo começou.
Continuou.
Terminou.
Dormi, por que estava doendo, e não era só meu abdômen.

Rebecca/

Pingente dourado de coruja repousando na palma da minha mão, e eu enfio meu nariz ali, cheirando como eu a cheiraria. Cheiro de ferro, mas eu só consigo sentir um cheiro doce, tentando imaginar aquele colar que agora é meu em seu pescoço.
Eu queria imagina-la sentindo minha falta, quero falar com ela, mas sei que eu seria grudenta o suficiente e ela só precisa de um tempo de mim, por que eu iria querer.
Resmungo enquanto folheio um livro qualquer, estou com tanto tédio!
E o pior, eu tenho tanto a fazer!

Caroline/

Eu preciso ligar para ela.
Ela simplesmente não pode desistir.
Ela não pode desistir de mim.
Nada ajuda, estou simplesmente presa, presa a quilômetros longe dela.
 Preciso falar com a Bê, ela simplesmente não entende que eu estava ocupada esses dias e não tinha tempo para falar com ela.
Tento falar para minha irmã, mas ela está enfurnada em seu celular, e eu queria estar como ela.
 Eu te amo, tá?  Rebecca tinha deixado uma mensagem.
 Eu também te amo até a Lua(ida e volta).
Incrível. Simplesmente incrível o jeito como a gente estava brigada, o que era bem sério, e agora simplesmente estamos nos amando de novo, ou como sempre, por que afinal a gente nunca parou de se amar; acho que é nossa maneira de dizer que nossa amizade é muito maior que essa magoa toda, maior o suficiente para sentar em cima dela e releva-la.
— E... Sabe a história lá? Terminei.  que história? Ela escrevendo?
 'História lá'? Ahm? E a partir de agora falarei assim: Te amo até a lua(Ida e volta); é fofo!
 Dois pedaços. (inventei o nome ontem, quando eu terminei), a história que eu escrevi para ti, lesada!
Oh!
 Eu quero ler!!! Mas você tá fazendo eu me atrapalhar, a gente precisa conversar.
Ponto.
Eu podia vê-la se ajeitar onde quer que esteve e já preparar seus dedos atrevidos.
 Aconteceu algo?
 Aconteceu.
Nada. Ela está me esperando terminar e mostrar meu ponto.
 Você não me chama mais de ‘’Bê’’, ou ao menos faz muito tempo. Quem é ‘Caroline’? Isso prova que você ainda está irritadiça comigo, mesmo depois de todo esse amorzinho. Eu te deixei dormir várias noites magoada comigo, com a gente, você não iria se dobrar tão fácil.
Vi que ela estava escrevendo, então me adiante.
 Cale os dedos e deixa eu terminar!!!
Três exclamações.
 Termine.  ela. Ponto. Ela está concordando comigo, aposto que seu maxilar está trancado agora.
 Você está distante e se fechando novamente; e eu só queria que você me entendesse que eu não faço por mal. Agora me diz, qual é o problema?
Segundos.
Um minuto, e um pouco mais de segundos.
 Por que eu sinto que você que está distante, e a gente está realmente longe uma da outra, o que não ajuda! Eu sinto tantas saudades de você, que só é difícil, e eu fico assim, grudenta, querendo que você sinta tanto quanto eu. Eu só quero que você sinta falta, que você sinta! Você é tão malditamente calada e calma, tão suave, que me dá vontade de choramingar e te chacoalhar pelos ombros, te machucar até te fazer gritar!
Outch!
 Meu problema todo com ‘’ a gente’’, é que eu quero brigar com você, faze-la gritar, quero te ver reagir! Mas eu só vejo você fugir, ou se retrair. Daí eu fico fazendo inúmeros textos pra você, sendo afetiva! Chegando a ser grudenta, o que eu não sou! Estou desesperada, não estou segura, e eu sinto sua falta.
Ops.
Essa era eu, e eu só não conseguia escrever tão bem quanto ela, me jorrar a cada letra para ela ver o que eu estou sentindo.
É ela que faz a gente ver muito além das letras, não eu! Eu só sinto que eu não consigo dar o que ela precisa, e eu realmente pensei em digitar alguma coisa para sair dessa conversa, mas eu demorei demais para digitar e ela foi mais rápida que eu.
 Olha, quer saber? Depois a gente se fala, Caroline.
Não! Parece que eu a ataquei! Parece que eu que sou a culpada agora! E é tão revoltante o fato dela querer sair dessa conversa! Outch, entendi. Mas ela já estava off-line. E eu só estava desesperada o bastante por que eu sabia que ela foi, e que ela está chateada o bastante e lutando consigo mesma para voltar.
Terminaria assim?
Acabou?
Enquanto eu me perguntava, ouvi alguém falando comigo, me entregando papéis que eu fui obrigada a segurar.
 Estava no Brasil, eu sei. Eu fui para o Brasil esses dias, dai...
Não!
 Eu vou voltar para o Brasil, Caroline. Eu só queria me despedir, então trouxe isso para você, ou melhor, te devolver; talvez assim você consiga se lembrar um pouco dos velhos tempos.
Olhei para os papeis que eu segurava incrédula, e logo depois ao meu redor.
- Eu não acredito... – falei embasbacada, mas que merda! Eu só estava continuando! Estava acontecendo! Era o fim!
- Por que eu me sinto sozinha, Carol. – meus ouvidos se tamparam, eu não conseguia ouvir nada, só seus lábios se movendo junto com ela mesma. Como ela teria coragem de fazer isso comigo? Ela não pode simplesmente se despedir de mim e acabar assim, ou o pior, eu a deixar ir.
- Não, você não está. Você está aqui para se desprender, e não é algo com você, é algo comigo. Não se faça de vítima, Caroline, mas você não gosta que ninguém te prenda, e você só está de saco cheio de mim. Olha, eu só vim me despedir, ok?
Mas ela estava certa, não estava?
Isso era tudo que eu queria! Só me desprender!
Eu estava ficando louca, minha mente não parava de trabalhar e eu estava desnorteada. Flashbacks me faziam piscar e simplesmente rodar, dar as costas para as besteiras que Rebecca estava tentando falar, mas só sua boca se movia...
‘’Sentada em um banco em Londres observando London Eye, com 27 anos, com minha profissão de fotógrafa profissional estabilizada e completamente livre, eu não me sinto presa nem por um misero segundo!’’
Eu conseguia ouvir minha própria voz narrar isso pra mim.
‘’Beatrice está morta.‘’
Parecia que eu estava lendo minha declaração em seu funeral!
‘’Eu era livre!‘’
Ou esse funeral era meu?
‘’E agora eu entendia que ela queria só me prender em algo, ao menos em algo... Oh.’’
Minha voz ecoava em minha própria mente.
"Para sempre quando você se perder em seu grande pequeno mundo, você ter algo a quem voltar".
Como eu nunca enxerguei isso antes? Como eu nunca ouvi isso antes? Tinha que ser minha própria voz a falar, e agora, vendo ela falando em mudo, em Londres, eu consigo ouvir sua voz sussurrando isso no meu ouvido.
‘’Mas quando ela abriu os braços, eu fugi, por que ela os fecharia mesmo que em um abraço.’’
Não!
‘’E eu ainda não achei minha aceitação, e agora eu sei que ela está enterrada num tumulo.’’
Eu não queria imaginar Bê morta!
‘’Por um lado eu queria acreditar que tudo aquilo fosse verdade, mas por outro... Bê morta? Eu em Londres! Esqueci da outra parte e me foquei em Londres. ‘’
Agora, ouvindo minha voz ecoar isso só para mim, eu consegui me sentir um monstro, mas eu não estou no Brasil.
Parei minha mente rodando em lembranças, parei London Eye, ela não queria que eu gritasse? Não queria que eu reagisse?
 Não! Eu sei que não é só por isso! Você não veio só para se despedir, se não teria me abraçado. Aliás, você teria me abraçado de qualquer maneira! Não teria voado para o Brasil para trazer esses malditos papeis, e muito menos estaria tão nervosa, pulando nos próprios calcanhares.  eu estava desesperada. Segurei forte em seu braço e a virei para mim, enfrentando-a. Aguente! – Você quer que eu sinta falta...  continuei.  Mas eu não vou! Por que eu não vou te deixar ir.
E com o mesmo braço que eu a segurava, eu a puxei, e eu sabia que era só isso que ela queria, só isso que ela precisava, e eu também.
Eu gritei.
Eu reagi.
Eu a abracei.
Ela precisava sentir seu coração inteiro novamente, eu sentia que algo estava faltando, nos éramos uma só, só estávamos divididas e fomos separadas. Nós somos apenas dois pedaços.
Dois pedaços.
Dois pedaços partidos de um mesmo coração.
Oh!
Abro meus olhos e vejo meus pais depois de um véu de cabelo extremamente lisos, meus olhos estão molhados, todo meu rosto, e eu estou chorando. Levo minhas mãos ao meu rosto para limpar o mesmo, mas outros dedos tentam desajeitadamente tentar secar minhas lágrimas.
Oh!
Um ‘’’’ estrangulado alcança meus ouvidos, e ele está carregado de sotaque.
Soluço e minhas mãos alcançam suas costas novamente e a puxa pra mim, uma de suas mãos segurando meu cabelo e o apertando em sua palma, meus braços se enrolando em sua cintura e sua outra mão no meio das minhas costas, me puxando pra si. É um abraço desesperado, e eu só sinto que vou explodir; abraço como se eu estivesse abraçando meu sonho, para não deixar escapar. A gente se olha de novo, eu ainda não acredito que ela está aqui, e dessa vez eu não estou sonhando.
Será que ela teve os mesmos sonhos estranhos que o meu?
Aliás, era o sonho dela!
Mas afinal, é o mesmo coração, e nós somos pedaços do mesmo.
Mas agora a abraçando, eu sinto, olhando para seu rosto, eu leio; vivendo, eu sonho.
Somos a mesma história, mas escrita de maneiras diferentes.
Somos a mesma escrita, mas com letras diferentes.
Somos o mesmo coração, mas com pedaços diferentes.
Fim!
Para Carol, bem, vai lá no bp e me conta tudo u.u 
E como explicação para o meu sumiço, e agora chegada com uma short simplesmente sem pé nem cabeça, bem, não tem explicação. Se eu vou voltar? Sim. Quando eu vou voltar? Quando eu tiver algum material descente para mandar para vocês. Mas contar com inspiração é algo totalmente incerto, então é isso que eu deixo para vocês, uma certeza incerta. 
Eu vou voltar.
E se tem alguém do lado dai, eu agradeço, só por ainda ter tido a dignação de rolar essa página, por que bem né...
E para fechar... Beijos gatas seduzentes.

Melhor. Video! <3
(sim, eu viajei pro Rio só pra abraçar uma garota, ou devo dizer meu outro pedaço? A melhor parte de mim, anyway <3)